GRITOS VERTICAIS

O ser humano é maravilhoso: ainda ontem rabiscava garatujas nas paredes das cavernas; agora,... escreve poemas nas estrelas.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Canção do Outono Sombrio


(Foto: André L. Soares)
.
.
.
CANÇÃO DO OUTONO SOMBRIO
(André L. Soares)
.
Tenho pisado em folhas secas
que se amontoam aos pés das cercas,
depois esvoaçam pelo chão.
Acima, quase brilha um sol cinzento
simultaneamente ao vento,
que uiva a mais sombria das canções.
Vivo uma tristeza há mais de trezentos dias
sem ver flor ou ler poesia,
numa busca que parece ser em vão.
.
Nos meus olhos respinga a garoa fina
que se funde às minhas lágrimas...
(nem sei se sou eu quem chora ou se é o céu).
Escondido sob o espesso sobretudo
carrego o peso do mundo em minhas costas,
seguindo só com minhas botas e o destino infiel.
No meu caminho, a primavera não é óbvia,
sinto mais frio que num inverno em Varsóvia
(sonhos congelados na nevasca da ilusão).
.
Aspiro o pó branco que sobe pelas narinas
ou mergulho na bebida ofertada nos bares...
(falsas amigas que me empurram para a cova).
Não mais havendo lua-nova em minhas noites
semicerro as pálpebras e me acostumo ao breu;
afinal, o pior inimigo a enfrentar ainda sou eu.
.
Feito um corsário sem rumo,
minha alma de pássaro ganhou o azul,
migrou pro Sul,... foi embora no outono.
E se me mantenho em pé é por paixão:
tenho fé, que apesar de tanta derrota,
ao abrir alguma porta, ainda haverá verão.
.
.
.

.
Leia também:
Gritos Verticais /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Estro


(Foto: André L. Soares)
.
.
.
ESTRO
(Rita Costa & André L. Soares)
.
Adoro a forma como absorve
o que de minha alma
a palavra se alimenta;...
parece que invade
minhas entranhas,
onde apanha letras e fonemas.
Sinto que preencho espaços
resguardados de outras eras,
quando vejo que em seus versos
há muito de minha essência.
.
Não sei o que você pensa...
– penso que nem me entendeu –,
mas sua poesia surge no papel,
e, quem diria,... lá estou eu!
.
.

.

.
Leia também:
Gritos Verticais /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Das Marés


(Foto: André L. Soares)
.
.
.
DAS MARÉS
(André L. Soares & Rita Costa)
.
Teu jeito criança
veio com o mar.
A tua esperança
nasce do mar.
A cor dessas tranças
brilha no mar;...
o futuro nas conchas,
vi na pérola negra
em meio ao coqueiral.
.
O fim desse mundo
é o limite do mar.
Os desejos profundos
vêm do fundo do mar.
Nosso sonho mais lindo
sonho à beira-mar;...
no ouro da praia,
na cama de areia,
coroar-te mulher.
.
À tardinha o céu desce
até beijar o mar.
O profeta já disse
que o sertão vira mar.
Então, faço uma prece
louvando esse mar;...
ao lançar minha rede
sempre peço pra lua
um novo amanhecer.
.
.
.
.
Leia também:
Gritos Verticais /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Lucidez


(Foto: Carlos Salim)
.
.
.
LUCIDEZ
(André L. Soares)
.
Nosso pecado original
não foi provar
do fruto proibido;
mas, sim,...
desmatar o Paraíso.
.
.
.
.
Leia também:
Gritos Verticais /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Além do Amor


(Foto: André L. Soares)
.
.
.
ALÉM DO AMOR
(André L. Soares)
.
Maravilhoso seria possuí-la,
mostrar-me todo e real a ela,
abrir à volúpia uma janela,
o portão, a porta, a casa inteira,
até que se fizesse verdadeira,
alojando-se confortável ao coração.
.
E por ser assim profunda, então...
toda palavra se tornando obsoleta,
a felicidade fazendo-se completa,
mergulhados os corpos no silêncio,
faríamos amor, como hoje penso:
a paixão elevada, além da poesia.
.
A prática conduzir-nos-ia ao cansaço
e este, ao mais perfeito deleite:
vê-la dormir – tal anjo – ao abandono,
instante em que... atrevido,
eu pararia o universo,
só pra evitar que alguma luz distante
pudesse – talvez – incomodar seu sono.
.
.
.

.
Leia também:
Gritos Verticais /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Bicho-do-Mato


(Wolf's Reprisal - Jocarra)
.
.
.
BICHO-DO-MATO
(André L. Soares)
.
Desde cedo deixei
o medo de lado
e me lancei no encalço
dessa lida traiçoeira;
arrebentando elos, cordas,
cabeças, cabaços,
portas, taramelas, cancelas,
porteiras.
.
Só desejo o espaço livre
no vasto da estrada,
com a liberdade própria
dos bichos-do-mato;
dispensando tudo
que me seja um fardo,
salto de peito aberto
pelas cachoeiras.
.
Não divido meus caminhos
entre o bem e o mal;
tampouco temo a hora
da flecha certeira.
.
Sou avesso a qualquer coisa
que imponha limites;
desconheço as leis,
os reis, as fronteiras;
vim ao mundo pelo belo
que a vida oferta:
– o mar, o pôr-do-sol, a areia,
os rabos-de-saia,...
a loucura sensual
do amor à lua-cheia!
.
Não divido meus caminhos
entre o bem e o mal;
tampouco temo a hora
da bala certeira.
.
.
.
.
Leia também:
Gritos Verticais /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Uma Canção Urbana


(Rodovia do Sol - Gerson Nunes)
.
.
.
UMA CANÇÃO URBANA
(André L. Soares)
.
Pela janela do automóvel
toda a cidade passa rápida,
porém, meus olhos só vêem você.
Furo os sinais, de encontro à hora trágica,
mas enquanto ela não vem…
forço a sorte, indo além
dos limites do motor…
.
Pareço ouvir o ranger das rotações,…
é só a voz do demônio do farol
e eu pisando fundo, na Rodovia do Sol.
.
Uma a uma, vou ferindo as leis de trânsito.
No asfalto, gritam os quatro radiais.
Alguém buzina, para chamar minha atenção…
– esforço vão –
Ligo o rádio,… aumento o som,
acendo um cigarro;
acelero ainda mais, rumo à BR-101...
.
Em meu ouvido parece um ‘blues’,…
é só a canção do Vento Sul
e eu pisando fundo, na Rodovia do Sol.
.
.
.
.
Leia também:
Alma de Poesia /Gritos Verticais /Natureza Poética /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Samba do Amor Perfeito


(Samba - Lady Godiva)
.
.
.
SAMBA DO AMOR PERFEITO
(André L. Soares)
.
Confessa logo que você me deseja, ............. [ Ele ]
que se falo em seu ouvido você fica louca;
que seu corpo até lateja se ouve minha voz,
que quando pensa em nós, fica toda faceira;
quer rasgar a roupa e se entregar inteira,
quase me implorando um beijo na boca.
.
Confesso logo que eu jamais lhe esqueço, ..... [ Ela]
que se fala em meu ouvido, acaba toda pressa;
que quando penso em nós, nada mais interessa,
que quando você passa, perco minha cabeça;
nem mesmo sei meu nome, telefone, endereço
e suplicar seu beijo é tudo que me resta.
.
Sendo o que se quer, acertaremos o passo ..... [ Juntos ]
no compasso do destino que nos faz unidos;
decididas almas-gêmeas que se apaixonaram,
macho e fêmea que se amam, assaz atrevidos:
somos dois banidos desse Paraíso imperfeito,
revelando a todos que o amor é possível.
.
.
.

.
Leia também:
Alma de Poesia /Gritos Verticais /Natureza Poética /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Os Invisíveis


(El Hombre de Arena - Madstalfos)
.
.
.
OS INVISÍVEIS
(André L. Soares)
.
Famintos pelas ruas,
vestidos com mulambos,
calçados com chão duro;
banhados na sujeira,
sob as luzes do entulho.
Tratados pior que bichos:
têm por teto, as estrelas;
por comida, só o lixo;
quandos mortos, sem velório;
enquanto vivos, sem defesa.
.
São os filhos invisíveis,
desse matrimônio inglório
da maldade com a pobreza.
.
.
.

.
Leia também:
Alma de Poesia /Gritos Verticais /Natureza Poética /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Veredas e Diamantes


(Foto: André L. Soares)
.
.
.
VEREDAS E DIAMANTES
(André L. Soares & Rita Costa)
.
Ver-te aqui, nessas horas...
de palavras sentidas, sem alarde,
em que transcendes a poesia,...
é ter nos olhos refletido
o sereno transparente da aurora.
.
Vertes em mim,... inconsciente,
toda a alma em verdades
que transpassam pela pele,...
revelando fragmentos
que até então desconhecias.
.
Enfim,... invertidos os prismas,
busco, no oculto de tua lágrima
– delatora a descer sobre os relevos –,
o umbral que me leve aos rituais
de intuições e de segredos.
.
Assim,... verso a delicada semente,
subscrevendo em silêncio
cada verbo dos gestos que vi
florescer, em mais um dia,
pela essência dos sorrisos.
.
.
.
.
Leia também:
Alma de Poesia /Gritos Verticais /Natureza Poética /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Juntos


(Foto: André L. Soares)
.
.
.

JUNTOS
(André L. Soares)
.
Em cada casa, distanciados,
somos, contudo, ainda dois fortes;
porém, com menor capacidade.

.

Mas se unidos os braços e as vozes,

ecoamo-nos melhor pela cidade,

reduzindo as portas e os vãos,

um ao outro ofertando seus suportes

em trabalho erquido lado a lado

- mosqueteiros contra seus algozes -.

.

Mas, para tornarmo-nos assim, ferozes

- não pense duas vezes -,

basta que coloque suas mãos nuas

sobre as minahs duas mãos.

.

.

.

.
Leia também:
Alma de Poesia /Gritos Verticais /Natureza Poética /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Grito Vertical


(Foto: André L. Soares.)
.
.
.
GRITO VERTICAL
(André L. Soares)
.
Têm momentos em que a Geometria é louca
Tudo fazendo parecer fora de esquadro
Triângulo-retângulo - desenhado no dia-a-dia
Travestido de círculo-vicioso
Embutido - silencioso - nas linhas do hexágono
Expondo duas vidas - paralelas - que se buscam
E que - não adjacentes - cruzar-se-ão no nunca
Esperando - talvez - um milagre assimétrico.
.
Apostando - quem sabe - no absurdo geográfico
Ambas ofertando o tempo à pira do sacrifício
Alheias à dor, à saudade e ao ridículo
Andam livres - a sorrir - à beira do precipício
Marcando e adiando - comumente - seus encontros
Matando - na distância - o seu melhor
Movendo-se - sem perpendiculares - por vias diferentes.
Mormente - a essas retas - o beijo é algo impossível
Olham-se - sempre separadas - sustentadas no desejo
Obstruídas - que estão - pela linearidade lógica e precisa.
Obtusa paixão - inviabilizada pela Física:
Obviamente - esse amor - tende ao infinito intangível.
.
.
.

.
Leia também:
Alma de Poesia /Gritos Verticais /Natureza Poética /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos